quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Do ponto-e-vírgula

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010 0

(...) o presidente Sarkozy, faz alguns meses, havia instruído todo o seu ministério a reabilitar o uso deste sinal nos documentos administrativos, tendo fixado, por página, o mínimo de três ponto-e-vírgulas (mas cá para nós, que plural mais “singular”!). Tal medida teria como objetivo combater a tirania da frase curta, curtíssima — verdadeira praga que assola o estilo moderno —, fazendo voltar os elegantes e articulados períodos que sempre caracterizaram a sintaxe da língua em que brilharam Bossuet, Voltaire e Flaubert.

MORENO, Cláudio. Sua Língua.

O presidente da França é baixinho. É natural que se ocupe em esticar as coisas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Sobre o amor e a rosa

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 0
Viaje sozinho. Ou viaje com quem você ama. Não divida gastos com quem não pretende dividir o afeto. E isso é ainda mais verdade quando se juntam pessoas que não têm nada a ver umas com as outras. Sim, a pessoa que dorme ao seu lado pode habitar um mundo completamente outro do seu. Então não se desgaste lançando cometas para o céu na esperança de que o descubram no espaço. Talvez você tenha nascido mesmo é para habitar um mundo de Pequeno Príncipe. Não há nada de errado nisso. Apenas cultive a rosa.

Li uma vez na Folha Mais! um artigo cuja autora confessou ter terminado um relacionamento quando percebeu, no cinema, quando assistia a As Pontes de Madison com seu namorado, que este não compreendera por que ela se emocionou tanto na cena em que Franscesca (Meryl Streep) renuncia ao amor do fotógrafo vivido por Clint Eastwood para continuar com a sua vida pacata de dona de casa, resignada ao lado de um marido que ela não amava e de filhos que não a viam como uma mulher repleta de sonhos e mistérios.

Pois bem. Ela, naquele instante, teve a prova definitiva de que seu namorado não habitava o mesmo mundo, e que ela não devia ser obrigada a viver tão intimamente com alguém que não conseguiria jamais compartilhar da mesma dor, da mesma tristeza. Lembra-me uma frase do filme Closer: "Amo tudo o que dói em você." E são assim os amores que cultivam a rosa.

A vida é sobre isso. É tudo sobre o amor e da nossa capacidade de se afetar por pessoas que parecem significá-lo mais para nós, ou de nos afastarmos daquilo que nos não afeta de modo algum. Colhida a primeira experiência, a novidade precisa entrar logo no coração, ou seguirá o rumo das coisas esquecidas. Que são muitas nesta vida.

***

Cena do filme Noites Brancas, dirigido por Visconti, com Marcelo Mastroianni no elenco. Baseado no conto homônino do russo Dostoiévski, narra uma história delicada em que o amor se coloca como uma escolha que, por mais incoerente e irracional que pareça a princípio, somente faz sentido quando determinada pelo elemento que não se pode pensar.

Apenas ser.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Rio de Janeiro

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009 0
Ano bom. Tornei-me menos estúpido no seu correr. Travei guerras improváveis, algumas verdadeiramente cômicas — a graça do espírito tem dessas aventuras. Sinto-me, contudo, cada vez mais em ostra, cada vez mais hermético. Cada vez mais um filme de Godard.

A infância retorna em momentos como o de agora, em que tenho de arrumar a mala, escolher peças florais, vestir zilhões de sungas para saber qual encolheu desde o último verão — sim, pois não engordamos, as roupas que encurtam. E dessas banalidades a vida vai ganhando tons dourados deliciosos.

Tão dourados que me detive ao colocar na mala o livro que estou relendo — De Profundis, de Oscar Wilde —, por considerá-lo cinzento demais, muito embora, em leitura atenta e entregue, se observe nele algo comparado aos primeiros raios de sol a perfurarem as nuvens negras de uma tempestade finda, como se a luz fosse graciosamente irremediável depois da tormenta.

"Eu tenho o direito de partilhar a Dor, e aquele que é capaz de olhar para os encantos do mundo, e partilhar a tua dor, e compreender um pouco a maravilha de ambos, está em contato direto com as coisas divinas, e chegou tão perto do segredo de Deus quanto alguém pode estar."

E quem estará? Prefiro pensar essa dúvida com os pés afundados na areia à espera de uma batida de limão, enquanto olho para o céu e, reparando Deus em tudo, agradeço apenas por não estar chovendo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Paradoxal

sábado, 26 de dezembro de 2009 0
No piloto automático, sem grandes alturas ou rasantes forçados. Plano pelos amores como uma folha desgarrada de sua copa a flutuar em balé noturno.

Constato minha geração murchando em flor jovem. Ou o pior da minha geração. Não sei, de fato, se hoje conheço os que me serão companhia na maturidade, pois há sementes que demoram, e flores que se colhem tardias para uma primavera maior. Talvez, hoje, me relacione com as pessoas erradas seduzido por um perfume vulgar, volátil como os maus perfumes. Tudo porque a juventude é indecente demais, e maravilhosa demais, para ser devidamente pensada. Aborrece-me a ideia de pensá-la demais, ou do mesmo modo não vivê-la demais.

Sou um nerd que a genética não puniu, e em cujas veias correm a esperteza das ruas, a habilidade do baile de máscaras e a extrema educação sentimental. E por educação sentimental entende-se um instinto imponderável de autopreservação, ou preservação dos nervos e do pleno juízo. Sinto-me covarde às vezes, mas a consciência é uma alegria. E a renúncia, uma Arte.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Orfeu

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009 0
Orfeu resgatou Eurídice da morada dos mortos. Menos mitológica, porém, é a nossa empreitada. Vivemos a ressuscitar nosso cotidiano de miséria com algum artefato mais sublime. Mas os tempos de hoje não captam o sublime. Antes, desmerecem-mo. Tacham de esquisitos os que porventura dele bebem. Impenetráveis, arrogantes, dissimulados, fracassados. Se vivem então de forma ostensiva e franca, tratam de queimar-lhes a reputação, pois uma vida de realização de desejos desafia — e subjuga — as vidinhas pautadas pela contenção das vontades — ou pela hipocrisia que prega que um caráter é tão mais louvável quanto for a discrição ou dissimulação de seu portador. Afinal, um fama não conhecida nunca será uma má-fama.

E eis que a mediocridade varre os corações. Da morada dos mortos, apaixonam-se por carros, por rendas e contatos, por uma genética desejável. Desprezam a verdade, o ímpeto, a imperfeição inquietante. E de pouco adianta bancar o Orfeu e tentar tirar viva alma daquela morada. Preferem envelhecer mal, necessitar de ansiolíticos e dizer que o mundo é dos sortudos e dos espertos — mesmo sem ser um coisa nem outra e ter de se encostar em alguém para sentir-se incluído em tal mundo.

Como insuflar vida em um corpo que vive morto dia a dia? Como explicar que iremos nos arrepender dos nossos juízos mesquinhos quando formos nos deparar com a verdade inescapável? A saber, vamos todos morrer, mas nem todos terão sentido (em) alguma coisa.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Assim caminha a humanidade

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009 0

Liz Taylor

sábado, 28 de novembro de 2009

Zoológico de Vidro

sábado, 28 de novembro de 2009 0
Nossas expectativas em relação a algumas pessoas não se restringem às estabelecidas mediante contrato, ou mesmo por verbalização formalizada. Há destas que simplesmente existem, concordem ou não, e tememos por elas no mesmo grau em que esperamos que as respeitem.

Depois de dois anos, exatos dois anos, me vem à mente a mesma metáfora posta por um moleque sonhador. Agora, autor dela, enxergo seu sentido especular que à época me foi embaçado por algum tipo de sentimento torpe. A saber, em palavras mais dignas que as dele:

A cada afeto concebemos um cristal. Pode haver casos de tormentas avassaladoras que nada lhe fazem senão sacudir sua estrutura, restando íntegra sua transparência. Há casos, porém, de leves brisas — sopradas de não sei que montanha do mundo por um não sei qual deus traquinas — que provocam ao cristal um dano irreparável.

Pois bem. Tenhamos ou não um compromisso estabelecido, o cristal é gerado assim que permitimos nos afetar por alguém, como em Zoológico de Vidro, de Tennessee Williams — e não por acaso saí chorando dessa peça. Tenhamos ou não um compromisso selado, somente nós, e ninguém mais, sabemos o quanto nosso cristal é ao mesmo tempo resistente e delicado — qualidades estas variáveis de afeto a afeto — e o que esperamos de cada um.

Mas sobre a delicadeza o homem é pouco versado. Por isso há tantos cristais trincados por aí. Tanta gente esforçando-se inutilmente, e nisso enxergando exemplo de maturidade, em restituir ao vidro rachado sua integridade lisa e pura, quando na verdade estão rumando aos cacos. E tantos outros, e estes são os piores por serem profundamente estúpidos, usando da delicadeza alheia para jogos de pingue-pongue.
 
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