Alguns nascem com uma confiança natural no mundo. Minha mãe, portanto, não achou outra coisa senão alegria quando soube que aquele adstringente comprado na farmácia saíra com três reais de desconto.
O filho, este que voz escreve, no mesmo instante pegou da sacolinha e, observando a traseira do produto, foi atentar certeiramente na data de validade deste -- janeiro de 2010 --, como já soubesse, instintivamente ou de lições dolorosas, o motivo por que desvalorizam tudo neste mundo e nesta vida: passou-se o seu tempo, oras!
Não discorro sobre esse juízo, que nos já soa tão natural e definitivo, mas digo que a mãe, entristecida e colérica, quis logo reclamar seus direitos, enquanto me detive um passo atrás, deixando-me pegar pelo próprio gênio, cuja melancolia -- percebi -- não mais se deixa levar por "pequenas cortesias", mas antes procura nelas as intenções piores. E por que enxergo algo de tão trágico nisso? Algo de tão triste? Por que não apenas reproduzir a ignorância de minha mãe e darmos mão à felicidade?
O produto foi trocado. A mãe, ainda mais alegre por ter praticado um direito do consumidor, não reparou que o filho ao lado se angustiava em uma busca muito menos secular, mas não menos dilacerante: a validade de sua própria fé.
www.youtube.com/watch?v=rpbk8GYvqqc&feature=player_embedded#!
segunda-feira, 21 de junho de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
No tempo que for...
domingo, 6 de junho de 2010
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Dizer muito é dizer com os espaços em branco.
É fazer notar tua presença pela falta que tu fazes.
Tua lembrança pelo esquecimento dos que vieram depois de ti.
É fazer notar teu verso pela ausência brusca de rima.
Tua música pela falta de ritmo,
pelo jeito desastrado dos passos,
pela eternidade tocante das notas improvisadas.
Tenta convidar o Amor a sentar-se ao piano
e joga à sua frente uma partitura qualquer,
de um compositor qualquer.
O Amor, bobo nem nada, estalaria os dedos,
fecharia os olhos à plateia
e -- alheio à sonata dos séculos --
tocaria somente os corações...
Os conservadores o vaiarão por tamanho desrespeito
os sem-coração dirão tratar-se de um aventurado sem propósito
e os eternamente apaixonados entreolhar-se-ão suspirantes e calados
como houvessem prestigiado a manifestação repentina
de um amor acontecendo
em uma linguagem secreta.
Dizer muito é dizer para poucos.
Pois somente poucos,
dentro de si,
realizam o dito.
No tempo que for...
É fazer notar tua presença pela falta que tu fazes.
Tua lembrança pelo esquecimento dos que vieram depois de ti.
É fazer notar teu verso pela ausência brusca de rima.
Tua música pela falta de ritmo,
pelo jeito desastrado dos passos,
pela eternidade tocante das notas improvisadas.
Tenta convidar o Amor a sentar-se ao piano
e joga à sua frente uma partitura qualquer,
de um compositor qualquer.
O Amor, bobo nem nada, estalaria os dedos,
fecharia os olhos à plateia
e -- alheio à sonata dos séculos --
tocaria somente os corações...
Os conservadores o vaiarão por tamanho desrespeito
os sem-coração dirão tratar-se de um aventurado sem propósito
e os eternamente apaixonados entreolhar-se-ão suspirantes e calados
como houvessem prestigiado a manifestação repentina
de um amor acontecendo
em uma linguagem secreta.
Dizer muito é dizer para poucos.
Pois somente poucos,
dentro de si,
realizam o dito.
No tempo que for...
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Ma Mémoire Sale
quinta-feira, 20 de maio de 2010
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http://www.youtube.com/watch?v=2Ah8nDDf_TI
Lave
Ma mémoire sale dans son fleuve de boue
Du bout de ta langue nettoie moi partout
Et ne laisse pas la moindre trace
De tout ce qui me lie et qui me lasse
Hélas
Chasse
Traque-la en moi, ce n'est qu'en moi qu'elle vit
Et lorsque tu la tiendras au bout de ton fusil
N'écoute pas si elle t'implore
Tu sais qu'elle doit mourir d'une deuxième mort
Alors... tue-la
Pleure
Je l'ai fait avant toi et ça ne sert à rien
A quoi bon les sanglots, inonder les coussins
J'ai essayé, j'ai essayé
Mais j'ai le coeur sec et les yeux gonflés
Mais j'ai le coeur sec et les yeux gonflés
Alors brêle
Brêle quand tu t'enlises dans mon grand lit de glace
Mon lit comme une banquise qui fond quand tu m'enlaces
Plus rien n'est triste, plus rien n'est grave
Si j'ai ton corps comme un torrent de lave
Ma mémoire sale dans son fleuve de boue
Lave
Lave
Ma mémoire sa dans son fleuve de boue
Lave (lave)
Lave
Ma mémoire sale dans son fleuve de boue
Du bout de ta langue nettoie moi partout
Et ne laisse pas la moindre trace
De tout ce qui me lie et qui me lasse
Hélas
Chasse
Traque-la en moi, ce n'est qu'en moi qu'elle vit
Et lorsque tu la tiendras au bout de ton fusil
N'écoute pas si elle t'implore
Tu sais qu'elle doit mourir d'une deuxième mort
Alors... tue-la
Pleure
Je l'ai fait avant toi et ça ne sert à rien
A quoi bon les sanglots, inonder les coussins
J'ai essayé, j'ai essayé
Mais j'ai le coeur sec et les yeux gonflés
Mais j'ai le coeur sec et les yeux gonflés
Alors brêle
Brêle quand tu t'enlises dans mon grand lit de glace
Mon lit comme une banquise qui fond quand tu m'enlaces
Plus rien n'est triste, plus rien n'est grave
Si j'ai ton corps comme un torrent de lave
Ma mémoire sale dans son fleuve de boue
Lave
Lave
Ma mémoire sa dans son fleuve de boue
Lave (lave)
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Maldito
quinta-feira, 13 de maio de 2010
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Se eu pudesse perseguir em pensamento somente para reivindicar o pedacinho que me foi arrancado, pedacinho sem o qual nunca me compreendi completo de novo, ou suficientemente cheio de verdade.
De nada adianta eu me consolar na certeza de que levarão também o seu pedacinho, sem o qual também se sentirá incompleto e impreciso, e quando você voltará a ser mais parecido comigo do que jamais pensou, mais próximo do que jamais foi, sem contudo admitir jamais isso.
Sim, porque, para você, eu sou mau. Profundamente mau.
Se pudesse, além do que posso, conservaria tua juventude num pote de geleia. E não o faria por amor aos morangos frescos e silvestres.
Seria apenas pelo fetiche saboroso de te condenar à doçura quando tudo já lhe parecer amargo e hediondo, o que se dará depois de ter-se lambuzado inteiro.
Você dirá que eu sou mau. Profundamente mau.
Mas só compreenderá a maldade completa quando, arrastado pelo inverno rigoroso, sentir secar violentamente a tua primeira primavera, e quando tiver de colher as minhas flores malditas para enfeitar tua paisagem de gelo.
De nada adianta eu me consolar na certeza de que levarão também o seu pedacinho, sem o qual também se sentirá incompleto e impreciso, e quando você voltará a ser mais parecido comigo do que jamais pensou, mais próximo do que jamais foi, sem contudo admitir jamais isso.
Sim, porque, para você, eu sou mau. Profundamente mau.
Se pudesse, além do que posso, conservaria tua juventude num pote de geleia. E não o faria por amor aos morangos frescos e silvestres.
Seria apenas pelo fetiche saboroso de te condenar à doçura quando tudo já lhe parecer amargo e hediondo, o que se dará depois de ter-se lambuzado inteiro.
Você dirá que eu sou mau. Profundamente mau.
Mas só compreenderá a maldade completa quando, arrastado pelo inverno rigoroso, sentir secar violentamente a tua primeira primavera, e quando tiver de colher as minhas flores malditas para enfeitar tua paisagem de gelo.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
Sobre as flores e o concreto
segunda-feira, 15 de março de 2010
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Facilitaria, sim, se eu fosse mais amável. Eu seria igual a tantos, mas facilitaria o amor de alguns. Sendo pouco amável, não espero amor, pois amor não pode vir da hostilidade ou do desapego. Espero resistência, inquietude, espírito raro. Ou não espero nada. Ou espero que não esperem de mim.
Não tento mais penetrar o idioma banal com que se comunica a gente ordinária, com seus códigos próprios de conduta patética e julgamentos precipitados -- sempre ancorados em premissas hipócritas e moralistas --, com suas bajulações publicamente constrangedoras, com sua necessidade de juntar-se em bandos para suportar a existência particularmente vazia e destituída de significados maiores e subjetivos. A estes a música não chega, a poesia não assombra, o silêncio não diz nada além da urgência do querer falar. A Beleza, para eles, não é propriamente um estado, mas uma aparência.
Também dispenso os fracos e dramáticos. Não por serem piores, mas porque minha natureza é notadamente avessa a dramas frágeis e birras noturnas. Neles nem gosto muito de pensar, para não concluir que, escapando de uma banalidade, incorreram em outra tão mais banal que a primeira. Dramas exagerados desmerecem o sentimento que eles se propõem a retratar, tal qual uma atriz que chora e esperneia na cena em que lhe comunicam a morte de seu filho, enquanto uma outra, ao receber a mesma notícia, reproduz nos olhos fixos e calados não somente a dor devastadora da perda, mas toda a vida do filho que perdeu.
Facilitaria, sim, se eu fosse mais amável. Teria companhia sempre, teria cortesias sempre, teria sempre em quem me apoiar -- e um amor sempre disponível no celular. O infortúnio de ser mais amável, porém, é que talvez eu me perdesse de mim mesmo, visto que minha natureza é outra e mais arisca, e, em meio a tantos perdidos afáveis, deixasse de compreender o amor que jamais precisou se ajustar.
segunda-feira, 1 de março de 2010
A sabedoria de Cândida
segunda-feira, 1 de março de 2010
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Uma escolha se coloca a Cândida no clímax do texto que leva seu nome, escrito pelo irlandês Bernard Shaw e encenado ontem no Theatro Pedro II.
Ao seu marido, um clérigo conservador famoso por suas pregações, opõe-se um poeta "efeminado", romântico e agudo na observação da alma humana. Este jovem, apaixonado por Cândida, supõe entendê-la melhor que o marido, fato que o fortalece a desafiá-lo. Ambos se torturam, e o desgaste imputa-lhes a razão. Cândida é quem deverá escolher.
Percebendo-se em um leilão, Cândida -- que é menos cândida que o Cândido de Voltaire, para quem "tudo vai da melhor forma neste mundo" -- deseja saber qual o lance de cada um dos pretendentes.
O marido chora, mas oferece à mulher seu talento de orador para sustentá-la, seu trabalho para garantir-lhe segurança e conforto e seu prestígio social para sua dignidade.
O poeta não chora, mas oferece a Cândida o seu mais alto tesouro:
"A franqueza. A desolação. A carência do meu coração."
Entre o amor de um marido eficiente e o de um poeta sensível, Cândida decide-se, em suas palavras, "pelo mais fraco dos dois".
O marido cai em prantos. É ele o escolhido.
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